Antes da largada, antes do primeiro passo, antes até de se inscrever: quase todo mundo que já encarou um grande desafio teve o mesmo pensamento passando pela cabeça. Será que eu consigo? Não é um pensamento de quem está despreparado. É um pensamento de quem está prestes a fazer algo que importa.

O problema é que ninguém posta isso. As redes mostram a largada, a medalha, a foto na linha de chegada. A dúvida do meio do caminho, essa fica de fora e por ficar de fora, parece que só acontece com você.

A dúvida não é falha de preparo, é parte do processo

Numa maratona, boa parte dos relatos de crise acontece por volta do km 30 a 32, dentro dos últimos 20% da prova. Não é coincidência, é fisiologia: o glicogênio, estoque de energia rápida guardado no fígado e nos músculos, começa a esgotar, e o corpo perde a capacidade de manter o ritmo, mesmo que a cabeça esteja mandando "vai". É esse momento que os atletas de endurance chamam de "bater na parede".

Mais de 2 em cada 5 maratonistas relatam esse esgotamento em algum grau. A boa notícia: reduzir a intensidade por cerca de 10 minutos costuma ser o tempo que o corpo precisa pra migrar pra queima de gordura como energia alternativa. É por isso que muita gente que "quebra" consegue, minutos depois, voltar a se mover, só que num ritmo diferente.

Só que a exaustão física é só metade da história. A dúvida que vem junto tem explicação tão real quanto.

Por que a cabeça desiste antes do corpo

Um estudo publicado no Journal of Applied Sport Psychology, em 2023, testou ciclistas em fadiga mental com e sem uso de autofala motivacional - aquelas frases de incentivo que você repete pra si mesmo. Resultado: quem usava autofala treinada sustentava esforço por mais tempo antes de exaurir.

Entre ultramaratonistas, os traços psicológicos mais citados em estudos qualitativos se repetem: persistência, capacidade de manter a calma sob desconforto físico, autofala positiva, metas claras e o que os pesquisadores chamam de "reservas mentais" - um motivo maior que você acessa quando o corpo pede pra parar).

Repara: nenhum desses estudos fala em "não sentir dúvida". Falam em ter uma estratégia pra quando ela chegar. A diferença entre quem termina e quem desiste não é a ausência de medo, é o que cada um faz com ele.

O que fazer quando a dúvida bate

Juntando ciência com o que se repete entre quem já cruzou essa faixa da prova várias vezes:

Quebre o trecho em pedaços menores. Pensar em tudo que falta de uma vez é demais pro cérebro; pensar só até o próximo posto de hidratação, dá conta. Tenha uma frase pronta pra esse momento, porque a autofala funciona melhor quando é treinada antes, não improvisada na crise. Tenha um porquê maior que o desconforto do momento. Não precisa ser grandioso, só precisa ser seu. E aceite a queda de ritmo sem virar fracasso: caminhar não é desistir, é uma das formas mais eficazes de dar tempo pro corpo trocar de fonte de energia.

Se você está começando agora nesse mundo, vale a pena também dar uma olhada no nosso guia sobre como começar a correr antes de pensar nos últimos quilômetros de uma prova longa.

A dúvida não escolhe nível de experiência

Vale dizer antes de fechar: nada disso é exclusivo de quem corre 100 milhas. Os últimos quilômetros de uma prova de 10km também têm dúvida, a fisiologia e a psicologia por trás são as mesmas, só a escala muda. Quem está terminando os primeiros 21km da vida sente isso com a mesma intensidade de quem já correu trinta ultras. A dúvida não é prova de despreparo. É prova de que o desafio importa de verdade.

O antes que ninguém mostra

Se tem uma coisa que fica clara quando você conversa com quem já encarou desafios extraordinários, é que a dúvida não desaparece com a experiência; Ela só encontra companhia. Foi exatamente sobre esse "antes" invisível, preparação, disciplina, alimentação, treinos, erros e dúvidas, que conversamos com cinco atletas de endurance na primeira edição da Galapagos Basecamp. Uma conversa real, sem roteiro, sobre tudo que normalmente fica de fora das redes sociais.

Assista ao episódio completo no nosso canal do YouTube. Tem uma surpresa esperando na descrição.E se você está no seu próprio "antes" agora, montamos uma seleção no site com as peças que eles usaram e aprovaram durante o encontro.

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